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Chorar não é fraqueza.

  • Foto do escritor: Gabriel PinOli
    Gabriel PinOli
  • 18 de jan.
  • 4 min de leitura

Eu adoro fazer pessoas chorarem. Soa meio tóxico, né? É daquele tipo de comentário que, fora de contexto, tem cara de gente problemática. Mas a verdade é que não é bem o choro que me interessa — é o que acontece depois que ele vem.


Não é sobre prazer em ver alguém sofrer. É sobre alívio. É sobre ver alguém, finalmente, largar um peso que vinha carregando como se fosse obrigação.


Chorar faz bem. Não porque resolve tudo — mas porque abre espaço. É como quando a pressão fica grande demais dentro de um lugar fechado… uma hora ela precisa escapar, senão explode. E o que você evita sentir não desaparece: só fica guardado.


Foi nos meus momentos de choro que eu mais consegui olhar de frente pro que doía. Não pra romantizar a dor, mas pra finalmente parar de fugir dela.


Tem gente que diz “não gosto de chorar” com o mesmo tom de quem diz “não gosto de olhar fatura do cartão”. No fundo, não é sobre o choro. É sobre encarar. Quando alguém fala isso, o que eu ouço é: “Prefiro não olhar pro que está acumulando aqui dentro.”


E eu sinto pena — mas não de deboche. Não pena de “coitadinho”. Pena de cuidado. De zelo. Porque problema ignorado não some, vira acúmulo. E acúmulo, uma hora, vira falta de espaço.


Pensa na sua vida como a sua casa. Na correria da semana, às vezes não dá tempo nem de varrer a sala direito, tirar a poeira das prateleiras, organizar o básico. Até aqui, tudo bem. A vida é assim mesmo.


Só que imagina que, no meio desse caos, aparece uma visita sem avisar. E você, sem energia pra lidar, deixa entrar. A visita fica. E não é daquelas educadas: é daquelas que não avisam quando vão embora. Que sujam a louça e deixam na pia. Que dormem na sua cama, bagunçam o banheiro, não fecham nem a tampa do vaso — e seguem a vida como se a casa fosse delas.


Você segue trabalhando, resolvendo boleto, fazendo o que dá pra manter tudo funcionando… e a visita ali. Daí chega outra. E mais uma. E mais outra. Quando você percebe, já não tem mais chão livre. Não tem mais sofá. Não tem mais cama.


Só que você não olha no olho dessas visitas. Porque dá trabalho. Porque exige conversa. Porque exige coragem. E, principalmente, porque pode te fazer chorar. Então você faz o que parece mais fácil: vai ao shopping, vai ao bar, abre a geladeira e come sem fome. Abre o aplicativo de relacionamento. Abre um site de pornografia barata. Ou tudo isso junto. Porque dependendo do caos na sua casa, tem gente que não foge pra um escape só — foge pra todos.


E o mais irônico é ouvir, depois, a frase dita com a maior inocência do mundo: “Tenho estado tão ansioso ultimamente…” Ultimamente. Um “ultimamente” que já tem anos.


Talvez porque ninguém nunca te disse que chorar ajuda a limpar a casa. Talvez porque a vida inteira você ouviu: “Engole o choro.” “Chorar é coisa de gente fraca.” “Chorar não leva a lugar nenhum.” Talvez não leve mesmo. Mas leva as visitas embora. Uma por uma.


Porque chorar é, muitas vezes, a conversa que você vem evitando. É o aviso educado de que aquele espaço — a sua casa — precisa ser devolvido. Chorar é você dizendo: “Aqui já não cabe mais isso.” E quando você não chora… quem passa a não caber dentro do seu lar, de você, é você mesmo.


Você começa a dormir no quintal. Num banco duro. Vai se acostumando ao desconforto. E, aos poucos, na vida cotidiana, vai virando alguém apático. Frio. Sem humor. Sem brilho. E eu sinto em te dizer, mas ninguém fica perto de quem já desistiu de habitar a própria casa.


Aí você diz: “Ah, graças a Deus tal pessoa saiu da minha vida. Deus sabe o que faz.” Mas você sente falta dessa pessoa, né? Aquela pessoa escolheu sair da sua vida porque você escolheu não estar nela faz um tempo. Talvez ela não tenha ido embora de você. Talvez você tenha ido embora de si faz tempo.


E os amigos até querem voltar… mas querem voltar a encontrar quem você era. Aquela pessoa viva. Que dormia na própria cama. Que limpava a própria casa. Que tinha coragem de conversar com o que doía. Eles não querem ver você expulsar ninguém à força. Querem ver você convidar educadamente essas visitas indesejadas a irem embora.


Conversar. Ouvir. Chorar.


Você lembra de *Alice no País das Maravilhas*? Tem uma cena em que ela cresce tanto dentro de um cômodo que já não cabe mais ali. Ela se desespera. Chora. Chora tanto que o quarto começa a encher de lágrimas. Parece que tudo piorou. Mas é no meio dessa correnteza que aparece o frasco que a faz encolher. E só então ela consegue sair daquele lugar sufocante.


Não foram as lágrimas que tiraram a Alice dali. Mas foi por causa delas que a saída apareceu.


Talvez você esteja assim. Grande demais pra um espaço pequeno demais. Convencido de que chorar não adianta — enquanto se afoga em silêncio. Chorar pode não te curar na primeira lágrima. Mas é a partir dela que você começa a esvaziar os cômodos ocupados por quem nunca deveria ter ficado.


Que viagem… fui longe agora, né? Antes que eu cite outro filme, melhor eu parar por aqui. (risos)


Então vou encerrar com um conselho simples: chora. Tira um tempo da sua semana pra isso. Um, dois, três momentos, se precisar. Não pra se afundar — pra se esvaziar.


Ou você chora e limpa a casa… ou continua dormindo nesse banco duro, debaixo de sereno, no quintal da sua própria vida.


Pode parecer estranho eu dizer que adoro fazer pessoas chorarem. Pode parecer meio errado, meio tóxico. Eu adoro mesmo. Porque eu sei: choro limpa. Choro organiza. Choro devolve a casa pra quem sempre foi o dono.


Engolir o choro não é força. É adiamento.


E casa nenhuma aguenta viver cheia de visitas indesejadas pra sempre.




Chorar não é fraqueza, é limpeza.

O que você evita sentir não desaparece, acumula.

No fim, ou você chora e limpa a casa… ou continua dormindo do lado de fora de si.

 
 
 

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