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2016 não sabia disso.

  • Foto do escritor: Gabriel PinOli
    Gabriel PinOli
  • 19 de jan.
  • 6 min de leitura

Se a verdade fosse um remédio, em sua bula viria assim:

Princípio ativo: viver.

Posologia: um “eu sou” por dia — de preferência em voz alta.

Efeitos colaterais: ombros mais leves, riso menos ensaiado, pele respirando, coragem de existir sem pedir desculpa. Às vezes dá um tremor — não de medo, mas de liberdade chegando.

Interações: incompatível com personagens. Potencializa quando usado junto de silêncio, oração e uma conversa honesta no espelho.




Eu sei muito bem disso agora.

Em 2016, eu não fazia ideia.


Eu tenho fotos lindas daquele ano. Lindas mesmo. Tudo no lugar: postura, sorriso, enquadramento, estabilidade. Quem vê, jura que era felicidade. Quem viveu, sabe que era disciplina. E eu fui muito bom em parecer muito bem.


Em 2016, completavam quatro anos que eu não tinha qualquer tipo de relação com ninguém. E quatro anos antes eu tinha sentado com a minha família para dizer o que eu era… e, no fim, escolhi o amor deles como quem escolhe um teto: “eu aguento a minha própria falta, contanto que eu não seja despejado.” Eu não queria perder a família. Então fui perdendo a mim mesmo, devagar, educadamente, como se isso fosse virtude.


Eu pedia pra Deus me “curar” com a mesma fé de quem pede pra não sentir sede. Como se o problema fosse a água. Como se ser quem eu sou fosse uma falha de caráter, e não uma verdade de pele. Eu negociava com o céu porque era mais fácil brigar com Deus do que admitir que eu estava ali, vivendo uma vida inteira para não desagradar ninguém.


E quando a gente vira personagem, a rotina vira maquiagem. Eu estudei e trabalhei como quem corre. Corria pra não ouvir a alma. Corria pra não ficar sozinho comigo. Corria até cansar o corpo, porque cansado eu dormia sem conversar com o que doía. Eu tinha um currículo cada vez mais bonito… e um coração cada vez mais calado.


Muita gente vive assim a vida inteira: sorriso instagramável o tempo todo, sofrimento em silêncio. Não é falta de força. Às vezes é excesso de medo. Medo de perder amor. Medo de decepcionar. Medo de ser olhado como se tivesse virado um estranho. E é curioso — a gente aceita morrer por dentro só pra continuar sendo reconhecido por fora.


Aí, um ano depois, eu dormi dirigindo.


Eu repeti essa história mil vezes, eu sei. Mas tem histórias que a vida insiste em repetir dentro da gente porque foi ali que ela decidiu nos salvar. Às vezes não é um acidente — é uma vírgula. Uma pausa mínima colocada no meio da frase certa para impedir que a vida vire um ponto final antes da hora. Como se alguém, lá de cima, tivesse interferido na gramática do destino só para garantir que ainda havia continuação. Como se o freio tivesse sido puxado não para interromper a viagem, mas para impedir que o “bonito” virasse fatal.


Eu não acordei só do sono.

Eu acordei do papel.


Foi como se a vida dissesse: “Chega de sobreviver bem apresentado. Agora você vai viver de verdade — mesmo que dê bagunça.” E dá. Viver de verdade dá trabalho. Porque a mentira, por mais pesada que seja, tem uma vantagem: ela já vem com roteiro. A verdade não. A verdade exige improviso. Exige coragem de encarar a própria voz sem texto decorado, sem ensaio, sem plateia.


E é aí que o remédio começa a fazer efeito.


Porque a cura que eu implorava a Deus não veio como uma mudança mágica de orientação, nem como uma normalidade que a sociedade premia. Veio como algo muito mais simples — e muito mais assustador: parar de mentir. Como se Deus tivesse me dado não um novo corpo, mas um novo jeito de habitar o meu.


No início, os efeitos colaterais parecem ruins: dá medo de falar; dá vontade de voltar atrás; dá luto por tudo que você deixou de viver; dá raiva por ter demorado tanto. Dá aquele silêncio estranho antes das palavras saírem, como se a garganta tivesse passado anos aprendendo a ser cela, não passagem — como quando você ensaia uma verdade no pensamento, mas o corpo ainda não sabe se pode deixá-la escapar.


Mas depois… depois vem a melhor parte — que parece exagero, mas não é.


Vem um riso que não pede permissão.

Vem um descanso que não precisa de justificativa.

Vem um “eu sou” que, quando sai, não volta mais pra dentro.

Vem um tipo de paz que não é ausência de problemas, é presença de você.


E sim, vem também aquele detalhe quase cômico: você olha pras fotos antigas e pensa “meu Deus, eu reclamava da minha pele, do bigode chinês, da entrada no cabelo, de dorzinha nas costas…” como se aquilo fosse o apocalipse. Como se a maior tragédia fosse o espelho. E hoje você entende: o espelho nunca foi o inimigo. O inimigo era o teatro.


Uma década se passou.


Óbvio que outros problemas surgiram. Sempre surgem. A vida não vira um comercial de margarina só porque você decidiu ser verdadeiro. Mas muda a escala. Muda o tamanho das coisas. Porque nada é maior do que passar anos se traindo em nome de uma paz que, na verdade, era só medo bem vestido.


E aconteceu também o que eu jurava que não aconteceria: a família que eu achava que não me amaria por eu ser quem eu sou… aprendeu. Não foi automático. Teve lágrimas, teve adaptação, teve estrada. Porque fé rígida não muda num estalo. Mas muda quando tem amor dentro. E, aos poucos, foi ficando evidente uma verdade que hoje eu digo com calma: o anormal não é ser gay. O anormal é não ter amor dentro de casa. O anormal é amar alguém só enquanto ele se dobra. O anormal é chamar de cura aquilo que te mata por dentro.


Ser quem você é não é uma opção como quem escolhe sabor de sorvete. Você simplesmente é. A biologia pode dizer que se nasce. Freud pode dizer que se torna. A sociedade insiste em chamar de escolha. Podem existir mil teorias, livros e debates — mas há algo que nenhum argumento derruba: ninguém escolhe sofrer mais só para caber. O que a gente escolhe, quando consegue, é apenas isso — se esconder ou se revelar.


E aqui entra uma frase que muita gente odeia, mas que eu não consigo ignorar: *memento mori*. Lembre-se de que você vai morrer. Não para viver obcecado pela morte, mas para parar de adiar a vida como se houvesse estoque infinito de “depois”. A morte não ameaça — ela amplia. Ela pergunta, sem delicadeza: “Você vai gastar sua única existência sendo personagem de uma história que nem é sua?”


No fim, todo mundo vem sozinho. E todo mundo vai sozinho. E se é assim… por que a gente insiste em passar a vida inteira pedindo autorização para existir?


Hoje eu olho para 2016 sem vergonha. Eu sinto compaixão. Eu vejo um menino — um homem já, mas por dentro ainda menino — tentando merecer amor do jeito mais errado: diminuindo a si mesmo. Vejo um sorriso bonito e ensaiado para a foto, um corpo presente e uma alma ausente. E eu queria atravessar aquela imagem, encostar no meu próprio ombro e dizer: você não precisa ser curado do que você é. Você só precisa parar de pedir desculpa por existir.


Porque a cura, a cura de verdade, não foi virar outra pessoa. Foi parar de fingir. Foi deixar Deus me encontrar sem fantasia.


E talvez o plot twist mais bonito dessa história seja exatamente esse: a cura que eu tanto pedi… veio. Mas ela não veio me mudar. Ela veio me devolver.


Por isso eu digo hoje, para quem ainda está sobrevivendo em silêncio: você não está atrasado. Mas você está se perdendo. E ninguém merece passar a vida inteira se vendo de longe, como se a própria pele fosse um lugar proibido.


Eu volto, então, ao começo — aquele começo que um dia eu achei que fosse vergonha e hoje reconheço como oração. Eu me lembro de mim dizendo, em algum quarto, em algum culto, em algum banho, em algum medo: “Deus… me cura.”


Eu só não sabia que a cura teria esse nome simples, quase insolente, quase óbvio — e ainda assim tão raro:


VERDADE




 
 
 

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